São Paulo

Crítica em massa na cidade do automóvel

Por Daniel Santini

Com seus quase 20 milhões de habitantes, a cidade de São Paulo é exemplo prático da ineficiência dos sistemas de transporte que priorizam deslocamentos individuais em automóveis privados. Mesmo com investimentos crescentes na infraestrutura viária, com a construção de viadutos e a expansão de avenidas, a capital econômica do Brasil trava rotineiramente em congestionamentos diários que passam dos 150 km de extensão. Para tentar manter a circulação da frota de 5 milhões de carros, um para cada quatro habitantes, conforme estatística do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-SP), são gastos BILHÕES. Dinheiro que poderia ser destinado a melhorar o precário, ineficiente e caro sistema de transporte coletivo da cidade. Na contramão da tendência das cidades que buscam melhorar a qualidade de vida dos habitantes, em vez de estimular a substituição do uso de carros pelo transporte público, a Prefeitura estuda aumentar as tarifas de ônibus de R$ 2,70 para R$ 2,90 no fim do ano. Se isso acontecer, o gasto de quem utiliza o sistema todo dia será de R$ 174 por mês, ou 34,1% do salário-mínimo nacional de R$ 510. Caminhar ou pedalar também não é fácil por aqui. O fluxo de carros é priorizado e a cidade fica cada vez mais inóspita para pedestres e ciclistas. Dez pessoas morrem por dia em decorrência de males relacionados à poluição em São Paulo, de acordo com estimativa do pneumologista Gustavo Faibischew Prado, do Instituto do Coração, um dos principais centros médicos do país.

É neste contexto que foi realizada na noite do Dia Mundial Sem Carro
, quarta-feira, 22 de setembro, uma Massa Crítica, ou Bicicletada como são chamadas por aqui, com mais de 700 participantes. Sem líderes e de forma anárquica, o encontro tornou-se a principal manifestação contra a política de transportes da capital. Aos gritos de “menos carro, mais bicicleta”, a massa saiu às 20h da Avenida Paulista, centro financeiro importantíssimo que não por acaso virou ponto de encontro dos cicloativistas da cidade, para ocupar algumas das principais rotas de trânsito. As avenidas 23 de Maio, Juscelino Kubitschek e Marginal Pinheiros foram invadidas por cartazes, luzes coloridas e gente alegre cantando. Lindo de se ver.

Não foi a única manifestação. Mais cedo, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, a Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) havia distribuído café da manhã para quem passasse de bicicleta. Na mesma semana, o Instituto CicloBR organizou o tradicional Desafio Intermodal, no qual os participantes atravessam a cidade em diferentes meios de transporte. Com o trânsito saturado, a bicicleta foi o meio mais eficiente em quatro das cinco edições, perdendo somente este ano, segundos atrás de uma motocicleta. Também houve iniciativas como a Vaga Viva, a ocupação de forma lúdica de uma vaga de automóvel por pessoas lendo, conversando, brincando; uma forma de chamar a atenção para o espaço público desperdiçado com os carros.

Se as autoridades ainda insistem em construir uma cidade que além de inóspita para pedestres e ciclistas, com suas pontes, viadutos, barulho e poluição, tem se revelado ineficiente ao extremo em termos de deslocamentos, a sociedade civil se mobiliza por mudanças. É crescente a pressão por alternativas de transporte e a população, cansada de perder tempo em automóveis, parece disposta a adotar novos hábitos para melhorar a qualidade de vida.  Pesquisa realizada pelo Movimento Nossa São Paulo por conta da celebração do Dia Mundial Sem Carro indica que 52% dos paulistanos gostariam de passar a utilizar transporte público.

Luana Pereira Saggioro nasceu em Jaú, interior do estado de São Paulo, Brasil, em 1985. Aos 16 anos passou em um concurso de modelos da agência Elite e venho morar sozinha na capital do estado. Aos 19 viajou para Madrid e Milão para trabalhar como modelo e foi parar na Índia por turismo. Aos 21 começou a fazer Artes Visuais na Universidade de Belas Artes e diminui os trabalhos de modelo. É vegetariana há mais de sete anos e não tem carro. Trabalha em uma casa de show chamada Casa de Francisca e vai e volta do trabalho em bicicleta. Facebook: Luana Saggioro

Leandro Sauer Carrillo nasceu em São Bernardo do Campo, Estado de São Paulo, Brasil, em 1983. É ciclista profissional e participa regularmente de competições profissionais de ciclismo de estrada. Interveio na pedalada, ou Massa Crítica, em SP e também em alguns movimentos pontuais, como o Desafio Intermodal.

Sobre o autor

Daniel Santini é jornalista, autor do blog OutrasVias, e do portal ((o)) Eco. Cresceu em São Paulo e desistiu do trânsito da cidade. Hoje vai para o trabalho em uma bicicleta vermelha.